Quem foi Padre Anchieta
Considerações iniciais
Estudar a vida do Pe. José de Anchieta, como qualquer outra personalidade vivida numa outra época, exige a compreensão do seu contexto. Isto significa considerar a moral da época, os agentes que o influenciaram, os motivos que o levaram a pensar e agir de determinada maneira, sem, no entanto, perder o senso de análise dos reflexos da sua ação para as gerações posteriores.
Anchieta é uma personalidade fascinante. Um homem comum. Não era atleta, ao contrário, sofria da coluna desde jovem e não possuia uma saúde invejável. Contudo era uma pessoa de convicções, capaz de se lançar com todo entusiasmo para alcançar aquilo que acreditava. Esta disposição fez com que o jovem Anchieta deixasse a segurança de sua família e da posição confortável que poderia alcançar, caso permanecesse na Europa.
Vir para o Brasil representava um grande desafio. Terra nova, povoada por uns poucos colonos e uma infinidade de índios, muitos dos quais tinham em sua cultura o hábito aterrorizador da antropofagia. A dedicação de Anchieta a estas pessoas fez com que passasse 44 anos de sua vida entre os "brasis", preferindo inclusive viver os seus últimos dias entre eles, na aldeia de Reritba - hoje muito propriamente chamada Anchieta / ES.
[Origens]
[A fundação de São Paulo]
[A Confederação dos Tamoios]
[A expulsão dos Franceses]
[Conclusões]
Os Anchietas
Os Anchietas eram família importante do norte da Espanha no sec. XV. Habitavam na província de Guypúzcoa e tinham com a família Loyola laços de parentesco.
João de Anchieta, pai de José de Anchieta, nasceu em 1499 e foi contemporâneo de Inácio de Loyola presumivelmente nascido em 1491. Quando Carlos V, jovem rei espanhol, decidiu aceitar o convite para tornar-se o chefe do império Alemão, deixando em seu lugar representantes que não incorporavam o espírito espanhol, despertou forte descontentamento no povo que em seguida levantou armas contra o regente nomeado. No norte, na província Guipúzcoa, João de Anchieta lidera a rebelião local.
Salvo pelo primo
O Duque de Nájera, responsável pelo reino de Navarra, manda tropas comandadas pelo capitão Inácio de Loyola para sufocar a revolta do povo contra as arbitrariedades praticadas pelos representantes do rei Carlos V, que se encontrava na Alemanha.
Ao fim dos combates, Inácio, reconhecendo seu primo distante, João de Anchieta, ao invés de aplicar a pena de morte aos revoltosos, concede ampla anistia. João, forçado pelas circunstâncias, resolve deixar o país indo morar em Tenerife nas ilhas Canárias.
Em Tenerife, João de Anchieta depois de nove anos ocupando cargos públicos casou-se com a viúva D. Mência de Clavijo y Llarena com quem teve dez filhos, sendo José o terceiro deles.
Ida a Coimbra
Aos 14 anos, José de Anchieta foi a Coimbra estudar humanidades e filosofia no Real Colégio das Artes. Lá, destacou-se logo como um dos melhores alunos. Possuia grande facilidade para línguas e poesia. Estas habilidades lhe valeram o apelido de "O canário de Coimbra".
Entrada na Companhia de Jesus
O contato com padres da Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, que salvara seu pai da pena de morte, fez aflorar a vocação de sacerdote cujas raízes podem ser creditadas à religiosidade de sua família.
Aos 17 anos, é aceito como noviço dos jesuítas e passa a dividir os seus estudos de retórica e filosofia com as suas orações. Anchieta chega nesta ocasião a passar 10 horas por dia auxiliando missas e entregando-se à meditação.
Vinda ao Brasil
Não se sabe ao certo a causa do problema que afetou a sua coluna, transformando-a em um "S". Uns atribuem à queda de uma escada sobre si; outros ao tempo que passava mal posicionado em seus estudos e orações. O fato é que esta doença o afastou de seus deveres e lhe causou grande medo de ser dispensado da Companhia.
Como achasse que ia morrer, passou a alimentar o desejo de dedicar seus últimos dias às crianças índias do Brasil. A incerteza acerca do futuro na Companhia de Jesus, devido à sua doença, transformou-se em alegria ao ser informado que seria enviado ao Brasil para o trabalho missionário junto aos índios. Partiu em 1553 na companhia de outros padres e noviços rumo à Bahia.
A fundação de São Paulo teve a participação direta do então Ir. José de Anchieta. Naquela época ele tinha acabado de chegar ao Brasil e por isso mesmo, apesar de já ser bastante considerado, ainda não ocupava lugar de destaque na Companhia de Jesus. Os créditos deste evento são atribuidos ao Pe. Manuel da Nóbrega.
Antecedentes
O Pe. Manuel da Nóbrega foi o primeiro jesuíta a chegar ao Brasil. Ele veio na comitiva do 1ºGov.Geral do Brasil, Tomé de Souza, em 1549. Aqui começou seu trabalho de catequese junto aos índios e colonos.
Em suas cartas pedia que fossem mandados mais missionários. Mas era importante que estes viessem por vocação, pois a missão não comportava aventureiros ou pessoas fracas de fé. Nóbrega foi o grande estrategista do trabalho missionário no Brasil. Ele enfrentava um problema grande, pois os portugueses se aproveitavam dos índios convertidos para escravizá-los e das índias para relações sexuais.
Os filhos destas uniões eram criados em um clima de promiscuidade uma vez que a mesma mãe índia tinha filhos de vários pais portugueses. O Pe. Nóbrega se preocupava com o futuro do povo que começava a se constituir. Por outro lado havia um trabalho grande junto aos índios a fim de tentar que estes abandonassem velhos costumes como o canibalismo.
Mais problemas
Outra dificuldade a enfrentar era que as decisões tomadas pelos superiores de Roma e Lisboa não levavam em conta a situação na nova colônia, que requeria cada vez mais uma atenção diferenciada. O Pe.Nóbrega passou então a advogar a criação de um bispado com sede em Salvador. Tanto insistiu que Roma o atendeu criando o bispado do Brasil e Santo Inácio elevou a missão na colônia à categoria de Província.
O bispo seria D.Pedro Fernandes Sardinha e o provincial, o próprio Nóbrega. Logo as diferenças apareceram. D.Sardinha muito tradicional, não aceitava o costume indígena e assim não pretendia permitir que estes assistissem à missa nus ou nelas tocassem seus instrumentos musicais profanos. Canibalismo então nem pensar.
Nóbrega argumentava que esta cultura vinha de várias gerações e que simplesmente proibir não traria resultados. Seria necessário estimular uma fé verdadeira fruto de um trabalho de longo prazo. O bispo não gostou da contestação e dispensou a ajuda de Nóbrega. Este muito desgostoso viajou para o sul entregando a Bahia nas mãos de Deus e foi concentrar seus esforços em São Vicente.
Pensando no planalto
Ainda lá as constantes interferências das autoridades portuguêsas prejudicavam o andamento de seu trabalho e o padre planejava realizá-lo no interior onde pudesse se dedicar exclusivamente aos índios. É nesse período que nova leva de padres e noviços chega para auxiliá-lo. Nóbrega envia os reforços ao planalto de Piratininga a 2 léguas de Sto André e a 10 de S.Vicente para fundar um colégio, que servisse aos índios e colonos do interior e funcionasse também como ponto de apoio a incursões que chegassem até o Paraguai.
A fundação de S.Paulo
Depois de uma longa jornada do litoral até a serra, o grupo de religiosos chegou a Piratininga, num local onde Martim Afonso de Souza já tentara, sem êxito, fundar uma aldeia por volta de 1532. Desta vez os jesuítas contavam com o auxílio das tribos de Tibiriçá, Caiubi e Tamandiba, que tinham aceitado com vigor a fé católica. Mesmo assim os primeiros tempos foram muito difíceis.
Anchieta nos narra : "A 25 de janeiro de 1554 celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia de São Paulo, e por isso, a ele dedicamos nossa casa". O primeiro barracão servia de dormitório, enfermaria, escola, refeitório, cozinha e capela. Anchieta prossegue : "O aperto do barracão era a ajuda contra o frio que nesta terra é grande, com muitas geadas. As camas são redes, que os índios costuram; não temos cobertores, só o fogo para aquecer. As vestes de algodão não esquentam nada. Não temos sapatos. Não temos guardanapos nem toalhas, mas não fazem muita falta pois em várias ocasiões não temos nem o que comer".
O ataque a São Paulo
Um grande desafio ainda viria cair sobre a aldeia. A crescente influência da mensagem cristã sobre os índios ia tirando a autoridade dos pagés e atraindo para São Paulo um contingente grande de pessoas que fugiam da escravidão. Não foi difícil aos índios insatisfeitos, comandados por Piquerobi, arregimentar combatentes para atacar o povoado. Algumas tribos tupiniquins se aliaram aos então revoltados tamoios, seus inimigos de longa data e contaram também com o apoio de alguns colonos interessados que o fracasso dos jesuítas facilitasse a continuidade do comércio escravo.
O ataque se deu a 10 de julho de 1562 e nele se destacaram o valente cacique Tibiriçá e o bravo colono João Ramalho. Os inimigos foram repelidos e a vida da vila parecia que voltaria ao normal. Mas as tribos amigas que habitavam ao redor da vila obedecendo sua vocação nômade partiram em busca de outros locais para morar.
Parecia que seria o fim da empreitada. No entanto, ao invés disso, São Paulo atraiu um sem número de colonos e a vila ganhou novo impulso progressista.
O mestre Anchieta
Assim, em pouco tempo o colégio começou a crescer. A afluência de vários colonos e índios obrigou a transferência dos professores do colégio de S.Vicente para S.Paulo.
Nesse período Anchieta passou a dominar a língua dos índios e escreveu o livro "Gramática da língua mais falada na costa do Brasil".
Incansável - Nos primeiros dias de serviço no colégio já se destacava a disposição de Anchieta frente à árdua tarefa. Sua conduta já mostrava aos companheiros o seu compromisso de fé. Antes mesmo de receber o sacerdócio já era considerado santo.
Ele era incansável. De dia ensinava no colégio, ajudava nas tarefas de plantio, obtenção de madeira, cozinha, e outras tantas. À noite, como não havia livros, ele os escrevia preparando a lição do dia seguinte. Assim nasceu a primeira gramática da língua tupi e as orientações pedagógicas para o trabalho missionário junto aos índios.
Inovador - Suas práticas eram inovadoras. Ele aproveitava o teatro e a música para encantar os alunos e daí lhes dirigir a mensagem. Fazia também traduções para representá-las na língua indígena. Várias vezes adaptou peças portuguesas à realidade da colônia. Estas eram muito concorridas e os jesuítas as aproveitavam para transmitir mensagens religiosas. As peças compostas por Anchieta eram sempre bem humoradas, sendo classificadas como comédia de costumes.
Prodigioso - Sua fama de milagreiro aumentou, quando, certa vez havia programado a exibição de uma peça ao ar livre para os habitantes de São Vicente. Logo que começou a festa armou-se um imenso temporal e as pessoas fizeram menção de se retirar. Anchieta acalmou a todos dizendo que só choveria após a festa.
Tudo aconteceu como ele havia dito e todos consideraram o fato como milagre. Enfermeiro - Anchieta não se ocupava só da saúde do espírito de quem encontrava. Ele também se preocupava com a saúde do corpo. Por isso desenvolveu habilidades de enfermagem. Ele executava com maestria práticas como sangrias e punções.
Homem da Paz - Também era um trabalhador pela paz. Sempre que havia discórdia ele estava disponível para que houvesse o entendimento. O caso dos colonos que se embrenharam no mato fugindo de uma acusação de crime, custou a Anchieta vários dias de caminhadas na selva e um naufrágio para encontrá-los e trazê-los de volta.
Outro fato extraordinário destes tempos foi quando estando em S.Vicente, pressentiu que havia uma indisposição entre um padre e um irmão no colégio de S.Paulo. Anchieta apareceu por lá, promoveu o entendimento, sem ter saído de S.Vicente!
A confederação dos Tamoios é um exemplo da organização social deste grupo. A grande nação Tamoio, subdividia-se em um sem número de pequenas tribos, autônomas, cada uma com seus próprios chefes e costumes. Porém, havia um "Conselho Superior", chefiado pelo notável cacique Caoquira, formado para decidir questões de maior importância.
Neste caso, o grande problema a resolver era a aceitação ou não da presença do invasor português em suas terras. Ainda mais que estes haviam se associado aos seus inimigos, os Tupis, e não raro os capturavam e impunham o trabalho escravo.
As queixas dos Tamoios contra as atrocidades praticadas pelos colonos eram infindáveis e, pela visão de alguns caciques, só seria resolvida com uma guerra pela sua expulsão. Os franceses, interessados no enfraquecimento da presença portuguesa no Brasil, davam apoio e incentivavam a luta. O Padre Manuel da Nóbrega, grande estrategista, percebe onde aquela situação de confronto pode levar. Decide ele mesmo intervir nas negociações, mal conduzidas pelos representantes da coroa.
Assim, se oferece para tentar um acordo que evitasse a guerra. Para ajudá-lo como intérprete e conselheiro convoca o Ir. José de Anchieta.
A partida
Saindo de Bertioga, Nóbrega e Anchieta chegam a Iperuí (ou Iperoig), hoje Ubatuba-SP - Há registros que apontam que o nome Ubatuba (Quanta canoa) veio deste evento, pois para lá se dirigiram os índios que vieram de vários lugares em suas canoas enchendo as pequenas baías existentes na região. Iperuí era também o lugar onde os Tamoios vindos da Guanabara se refugiavam para atacar a Capitania de São Vicente.
A chegada
Os padres, ao chegar, foram logo cercados por Tamoios que se mostravam bastante hostis. Anchieta, falando perfeitamente o idioma nativo, convence os índios de suas intensões pacíficas. Estes o levam à presença do chefe Caoquira que os hospeda em sua cabana.
O respeito que Caoquira tinha pelos padres era porque sua mulher havia sido escrava na Bahia e fora libertada graças aos esforços dos jesuítas. Imediatamente as conversações começam com o cacique falando vários dias, queixando-se das ações dos portugueses contra seu povo, sem permitir interrupção. Enquanto isso, enviou mensageiros a todos os chefes das tribos confederadas chamando-os para se reunirem com os jesuítas.
As negociações
Os primeiros contatos foram infrutíferos. A condição para a paz não era a saída dos portugueses da região e sim que lhes entregassem os chefes Tupis, aliados aos colonos, para que estes fossem mortos e devorados pelos Tamoios. Sobre isto os jesuítas além de não concordarem, não tinham autonomia para tomar tal decisão.
O tempo foi passando. Era um clima de muita incerteza que os padres viviam em seus dias de reféns. À chegada de cada chefe, tudo podia acontecer. Alguns não admitiam nem sequer conversar, antes que os sacerdotes fossem mortos. Passados alguns meses as exigências foram diminuindo, até que foram criadas as condições para a ida dos chefes Tamoios a São Vicente a fim de negociarem a paz (entre eles o valente Cunhambebe).
O Pe. Nóbrega, preocupado com o tratamento que os portugueses pudessem dar aos chefes Tamoios, resolve ir junto para lhes garantir a segurança. E como prova de boas intenções, deixa o Ir. Anchieta como refém.
O refém
Anchieta passou por muitas aflições desde a partida de Nóbrega. Uma delas foi quando os índios sequestraram a mulher e os filhos de um colono de nome Antônio Dias. Para libertá-la os selvagens exigiram um resgate. O português encheu uma carroça e foi até a aldeia. A princípio, os índios se satisfizeram com as mercadorias. Depois resolveram fazer uma festa, mataram o escravo do português e o devoraram.
A bebedeira durou a noite toda para desespero do padre e do colono que sem a presença dos índios amigos nada puderam fazer. No dia seguinte os índios pensaram da seguinte maneira, "já que matamos um escravo, a trégua com os portugueses vai se romper. Correr o risco por um ou por três dá na mesma. Vamos matar o colono e o padre e fazer outra festa!!"
Nos momentos de solidão, Anchieta entregava-se à oração e sempre dirigia-se à Virgem Maria. À ela dedicou inúmeros versos, os quais escrevia na areia e memorizava, para quando ficasse livre pudesse transcrevê-los.
A participação de Anchieta
Chegara o grande momento. Os franceses, depois de atacar as primeiras colônias portuguesas, resolveram garantir um pedaço de terra e fundar a França Antártica. Aportaram no Rio de Janeiro em 1555 e resistiram a várias tentativas de expulsão. Como sua aliança com os Tamoios da região era cada vez mais sólida, fez-se necessário um grande esforço para retirá-los definitivamente da Guanabara.
Os preparativos
Quando Estácio de Sá partiu da Bahia para expulsar os franceses, ele não imaginava a dificuldade que encontraria. Os índios da Guanabara empenhavam-se de toda maneira para impedir a presença portuguesa. Estácio de Sá manda emissários a São Vicente à procura de Nóbrega para que este lhe ajudasse com os índios. Foi ele quem negociou com os Tamoios o armistício 2 anos antes. Nóbrega e Anchieta foram de canoa de São Vicente ao Rio de Janeiro.
Ao chegar foram cercados por índios hostis que só não lhes tiraram a vida pela intervenção imediata da armada de Estácio de Sá que pôs os índios em debandada. O capitão resolveu então buscar reforços em São Vicente. Lá, devido as dificuldades de arregimentar combatentes, principalmente entre os tupiniquins, o moral dos demais foi se abatendo, chegando a ser cogitada a desistência da empreitada. Nesse momento Nóbrega interveio. Pois, para garantir a existência de um só Brasil, a presença de invasores não poderia ser tolerada.
O desembarque
No dia 1o. de março a esquadra entrou na baia da Guanabara, fundeando próximo ao morro do Pão de Açúcar e em local bem guarnecido (hoje Forte São João). Resolveram aí montar acampamento. Estava fundada a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Os portugueses mal tiveram tempo de erguer uma paliçada. Ao som dos tambores inimigos a luta começou.
Bem armados eles podiam resistir e até atrever-se a algunas incursões às plantações dos tamoios para garantir sua alimentação. A presença de Estácio de Sá e de Anchieta foi vital para a manutenção do moral da tropa que se defendia com bravura e determinação.
A luta recrudesce
Depois dos primeiros confrontos, cessaram as investidas dos Tamoios por três meses. Estácio de Sá estranhou tão longo retraimento e passou a suspeitar que estivesse sendo organizado um grande ataque. Era importante que todos estivessem preparados.
De fato, em 1o. de junho de 1565, os franceses apareceram em frente ao fortim com três naus bem equipadas e trinta canoas de guerra. Depois de muitas horas de luta, com grandes avarias os franceses se retiraram. Estácio entendeu que era hora de passar à ofensiva e armou um contra-ataque ao forte de Uruçumirim (hoje bairro da Glória), que os levou novamente a encarniçada batalha.
Compasso de espera
Como os portugueses também não tiveram êxito, a guerra diminuiu de intensidade. Os franceses limitavam-se a pequenos ataques com a intenção de abalar a tranquilidade dos inimigos, mantendo-os sempre sobressaltados. Passados alguns meses, a situação não se definia.
Os franceses continuavam a dominar a baía, fazendo livremente o seu comércio de contrabando, enquanto os trezentos homens liderados por Estácio não tinham tempo para plantar o essencial que lhes garantissem a alimentação. Assim, o capitão pediu à Anchieta que fosse à Bahia buscar ajuda de seu tio, Mem de Sá, o então Governador Geral do Brasil.
A partida foi em março de 1566. Mas como o Gov. Geral tinha muitos problemas para resolver em Salvador, sem falar nas dificuldades de formar uma armada que combatesse os franceses e seus aliados índios, seu retorno só se deu no ano seguinte, mais precisamente em 19 de janeiro de 1567. O período em que Anchieta passou na Bahia foi dedicado a completar seus estudos e ordenar-se sacerdote. Na volta teve participação importante no apoio às tropas que combatiam franceses e índios.
A batalha final
Quando, finalmente, Mem de Sá pôde vir em socorro ao sobrinho, trouxe reforços consideráveis e no dia seguinte à chegada deu-se o assalto às fortalezas de Uruçumirim e Paranapicuí (ilha do Governador) . No ataque ao primeiro reduto, saiu ferido mortalmente o capitão Estácio de Sá. As lutas foram terríveis e os franceses sucumbiram diante da maior presença portuguesa.
Aqueles, uma vez derrotados, fugiram para Cabo Frio e apenas uns poucos foram aprisionados. Por ordens do Governador Geral, que chorava a morte de seu sobrinho querido, os prisioneiros foram condenados à morte.
Fato polêmico
Para os padres aquela situação era delicada. Em sua maneira de ver as coisas, eles consideravam que as pessoas que não se convertessem não poderiam "ir para o céu". Então, Anchieta solicitou que se adiasse a execução para que tivesse a oportunidade de convertê-los e levá-los a uma morte cristã. Alcançado o objetivo, o padre acompanhava o sentenciado na hora da execução.
O fato é que Anchieta não aprovava os métodos usados pelo carrasco, que além de provocar os prisioneiros ainda os fazia sofrer por não golpeá-los como devia. Numa ocasião destas, Anchieta o repreendeu advertindo que fizesse o seu trabalho direito. Isto serviu para que alguns autores considerassem que Anchieta estivesse mostrando ao carrasco a melhor maneira de matar enquanto outros acreditam que ele quisesse evitar o sofrimento do condenado. O que você acha?
A principal crítica que sofre o Pe. Anchieta, sobretudo através da releitura de sua vida por parte de historiadores contemporâneos, é que o grande beneficiário de suas ações foi a coroa portuguesa.
O índio catequisado era mais dócil e se submetia com mais facilidade ao domínio dos colonizadores. Cristianizar os nativos teve como conseqüência fazê-los abandonar sua cultura e submetê-los ao jugo europeu. Esta aproximação com os europeus, não raras vezes, trazia doenças que dizimavam tribos inteiras.
O índio ficou fragilizado e a partir do período de colonização a população nativa não parou mais de diminuir. Os defensores de Anchieta reconhecem que os índios que se envolveram com os padres sofreram muito na mão dos colonizadores que se aproveitaram de sua docilidade. O próprio Anchieta em seus derradeiros dias, os quais passou, por opção, junto aos índios a quem dedicou toda a sua vida, fazendo um levantamento dos resultados de suas ações, não teve motivos para comemorar.
Ele mesmo, muito rigoroso consigo, se perguntava o que teria sido melhor para aquelas almas. Mas o que se pode depreender do que motivava Anchieta era o seu profundo amor a Deus e aos seus semelhantes. A ação dos jesuítas em favor dos índios era tão grande que lhes custou a expulsão do país, exatamente por não cooperarem com as autoridades.
Ao contrário, denunciavam suas mazelas e se posicionavam firmemente contra a escravização dos nativos. Anchieta veio ao Brasil atraído pela possibilidade de apresentar Deus às crianças índias. Pelo entendimento da época, morrer sem batismo representava uma condenação eterna à alma. Era então muito importante para quem tomara para si a tarefa de divulgar o Evangelho, mostrar a revelação divina e pretender que o outro aceitasse a fé. E para isso Anchieta não poupava esforços.
Vir ao Brasil naquela época era uma aventura imensa. Enfrentar tormentas, calmarias, doenças, corsários, naufrágios, etc., era só o começo. Aqui faltava comida, sapatos, roupas adequadas para o frio do planalto. Sobravam mosquitos, índios antropófagos, ameaças de ataques, animais ferozes e toda a sorte de dificuldades. O desenrolar de sua vida, foi sempre entre e para os índios.
Quando sentiu que seus dias se acabavam, preferiu passá-los em companhia dos índios e não dos portuguêses a quem seus críticos dizem que ele servia. O importante para aquele aventureiro de Jesus era trazer ao novo continente a mensagem de amor e fraternidade cristã. Mesmo com o risco da própria vida.
Sabemos hoje, que não se pode julgar o passado ou as intenções das pessoas com a ótica atual. Pode-se no máximo fazer uma consideração dos resultados de determinadas ações ou políticas. Para nós hoje é incompreensível como determinados povos se deixaram envolver por seus líderes a ponto de colaborarem com atos escusos.
Só quem perceber o contexto, entender a moral da época, o clima em que as ações se desenrolaram, é que poderá fazer uma análise crítica de qualquer evento ou personagem. Os nossos descendentes provavelmente serão rigorosos com certos atos que hoje praticamos e os consideramos normais. Assim, há que se entender as motivações do José de Anchieta do século XV.