Quem foi Inácio de Loyola
Considerações iniciais

Entender Inácio de Loyola requer disposição para o olhar interior, que possibilita a descoberta da grandiosidade da nossa alma e os limites do gênero humano. Perceber as transformações ocorridas naquele cavaleiro que queria conquistar o mundo mas que um tiro de canhão o levou à conquista do céu, nos obriga a retornar aos últimos anos do século XV.

A vida de Inácio de Loyola

1ª Fase 2ª Fase 3ª Fase
[A Espanha em 1491] [Desastre em Pamplona] [Manresa]
[Sua família] [Luta desesperada] [Os Exercícios Espirituais]
[A Vida na Corte] [Gravemente ferido] [A Caminho de Jerusalém]
[Metido em Confusões] [O retorno] [Em Jerusalém]
[O Fim do Protetor] [Vaidades] [De Volta]
[ Carlos V] [Meditando [A Inquisição]
[A irmã do Rei] [Decidido] [Em Paris]
[Guerra Civil] [O mouro] [Doente]
[A Repressão] [Cavaleiro de Maria] [A Companhia de Jesus]


A Espanha em 1491

À época de seu nascimento (1491), a Espanha passava por sua fase mais esplendorosa. O fim do regime feudal fez com que vários reinos se reunissem sob um só comando. Sob a regência de Fernão de Aragão e Isabel de Castela, os católicos, a Espanha lideraria os descobrimentos, faria tratados que lhe garantiriam a hegemonia nos novos continentes trazendo imensas riquezas por muitos e muitos anos. Havia um clima de euforia e confiança no reino.

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Sua família

Há indícios de que Inácio nasceu a 1 de junho de 1491 na mesma época em que o homem se lançava em aventuras fantásticas, só igualadas, se é que podemos fazer tal comparação, à conquista do espaço. Navegar "por mares nunca dantes navegados" e com a tecnologia da época era um desafio tão grande que poucos se arriscavam a tal empreendimento. Entretanto, esta coragem passava a fazer parte das pessoas que viviam naqueles tempos.

Realizar grandes proezas fazia parte da cultura e seguramente era um valor para a época. Isto provavelmente marcou profundamente aquela criança, filho caçula de uma família que seria hoje considerada de classe média alta. Seus ancestrais, sempre metidos em combates ou próximos à corte, passaram àqueles oito irmãos e cinco irmãs o gosto pelos feitos e glórias mundanas. Três de seus irmãos viriam a morrer em aventuras e combates. Um deles pereceu no recém descoberto Panamá em circunstâncias desconhecidas.

Sua mãe, Marina Sánchez de Licona, morreu não muito depois do nascimento do menino Iñigo, que tomara este nome talvez por homenagem a um de seus numerosos parentes assim também chamados ou pelo fato de ter nascido no dia, ou véspera, da festa de Sto Iñigo, monge beneditino. A esta criança privada do afeto de mãe e tendo mais doze irmãos para compartilhar as atenções, foi-lhe dada uma ama de leite de nome Maria Garín.

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A vida na Corte

Seu pai, Beltrán ainda vivia quando um grande amigo, Juan Velasquez, provedor da fazenda dos reis, oferece a Iñigo a oportunidade de complementar os estudos em seu castelo em Arévalo. Era a possibilidade de vir a ter contato com as cortes e cumprir com o destino dos Oñaz e Loyolas.

O menino deixou a casa de seus pais em 1506 então com 15 anos. A longa viagem o levou a viver em um castelo onde o luxo e a riqueza eram inéditos para Iñigo. O alto cargo exercido por seu tutor o colocava freqüentemente em contato com os reis e personalidades da época. Sua vida, até os 26 anos, era uma vida normal de alguém que tinha sido educado com princípios morais e religiosidade, mas que também se deixava levar pela sedução das coisas de sua época. Pelo que se sabe, ele não se abstinha de aventuras, fossem de natureza amorosa ou de feitos com armas. Em ambas tinha fama de se sair muito bem.

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Metido em Confusões

Fragmentos de sua conduta sob estes aspectos nos chegam através de um processo contra si e seu irmão Pedro Lopez, capelão, instaurado pelo corregedor da província de Guipúzcoa Juan Hernandez de La Gama por motivo de certos excessos pelos dois perpetrados e praticados. O irmão capelão podia se beneficiar de um privilégio concedido aos religiosos de se julgado por uma corte eclesiástica. Iñigo apesar de não ter este direito tenta a artimanha e ingressa junto com o irmão neste foro mais brando. Não fosse a indignação do corregedor tudo seria resolvido assim.

Mas devido a seus protestos Iñigo fica detido em uma prisão episcopal até o veredicto que dizia que este não era merecedor de foro especial e que devido a seus crimes e excessos deveria ser julgado pela justiça real. O documento ainda fazia menção à forma como ele se vestia "anda armado com corselete e couraças, com flechas e balestras e todo gênero de armas, como um homem de guerra ... tem cabelos abundantes e melenas longas até os ombros". Apesar de descrita como graves excessos, não se tem notícia do desfecho da ação. Não há reclamante. Provavelmente linguagem de advogado para fazer valer a competência de seu foro.

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O fim do protetor

O conceito de lealdade e fidelidade vai se forjar no triste desfecho que teve a vida de seu benfeitor. Grande amigo dos reis católicos Fernão e Isabel, Juan Velasquez tinha para si as rendas da cidade de Arévalo. Com a morte deste, em seu testamento deixara as rendas sobre o reino de Nápoles para Germana, sua segunda esposa. Tarefa delicada seria cobrar do reino de Nápoles tais tributos, o conselho real pediu ao sucessor Carlos V, que morava em Bruxelas autorização para transferir à viúva as rendas sobres Salamanca, Ávila, Medina, Arévalo, Madrigal e Olmedo.

Juan Velasquez tentou várias maneiras de dissuadir o rei que estava longe e que a princípio mostrou sensibilizar-se com o provedor. Mas, pressionado pela antiga rainha, que já não nutria mais os laços de afeto com D. Maria, esposa de Juan, cedeu as terras sem deixar nada para o antigo provedor. A Juan Velasquez só restava a resistência. E na construção das defesas da cidade participou Iñigo contra aqueles que atentavam contra o patrimônio de seu benfeitor. A batalha não chegou a consumar-se em grande escala. O bondoso Juan, decepcionado e abatido pela morte do filho mais velho Gutierre, morre subitamente deixando o jovem Iñigo sem maiores referências para recomeçar a vida que planejava.

Entretanto, a viúva sabendo das promessas que o marido fizera a Beltrán, pai de Iñigo tirando daquilo que lhe faria falta naquele momento 500 escudos e dois cavalos e o envia com uma recomendação especial a D. Pedro Manrique de Lara, o Duque de Nájera, pessoa ligada aos Velasquez por amizadde ou parentesco distante e que se encontrava nas graças do novo rei. Esta nova fase da vida de Iñigo vai lhe tirar da vida fútil das cortes para um compromisso político e militar para com o rei de Espanha.

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Carlos V

Afinal, a mudança de protetor lhe foi favorável pois, se por um lado diminuíra o prestígio do antigo amigo Juan Velasquez, por outro lado o Duque de Nájera estava em franca ascensão aos olhos do novo rei. E isto tinha sua explicação.

O jovem Carlos V, nasceu e cresceu em Flandres. Ao chegar na Espanha, nem sequer falava a língua do povo que iria governar. Era neto de Fernando de Aragão, o rei católico, que tinha como sucessora a mãe de Carlos, Joana, conhecida como a Louca. Ela alternava momentos de lucidez e de instabilidade emocional. Isto a levou a abrir mão do poder em favor do filho, sem porém abdicar de sua condição de rainha. Mas Carlos V trouxe consigo um séquito de germânicos que usufruíam do poder com tanta sanha, em detrimento dos interesses espanhóis, que despertou a repulsa dos mais patriotas.

Pela tradição era necessário convocar os representantes das cidades mais importantes do reino, para votar a lealdade ao novo rei. Como determinados nobres liderados por um certo Dr Zumel, se recusaram a iniciar os trabalhos enquanto estrangeiros estivessem presentes no conselho, a situação ficou bastante tensa. Tudo se complicava até que o Duque de Nájera, que apoiava a fidelidade ao rei, forçou a aprovação do conselho e o juramento de lealdade. O Duque cresceu aos olhos do rei.

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A irmã do Rei

Fazendo parte do séquito do Duque, Iñigo vive momentos importantes em sua vida. Ao chegar, Carlos V descobriu que sua mãe vivia em um castelo em Tordesilhas não saindo e nem permitindo que sua irmã mais nova, Catarina, saísse para nada. Sem saber como resolver a situação, o jovem e inexperiente monarca forja o seqüestro da irmã e a leva para Valladolid onde o povo, que acompanhava a triste história daquela jovem princesinha, a recebe em festa.

É o próprio rei quem organiza as comemorações. Nesta ocasião Iñigo é levado pelo Duque a participar dos eventos e fica bastante impressionado com a bela Catarina. A distância entre o seu mundo e o dela não o impede que ele teça seus sonhos e este fato tem levado vários estudiosos de sua vida a perceber o traço de suas desde já grandes ambições.

O desfecho da história do seqüestro foi que a rainha Joana, solitária em seu Castelo de Tordesilhas, entrou em desespero enquanto a Espanha festejava a princesa. Este fato muito incomodou a jovem que procurou o irmão e se dispôs a sacrificar-se pela sua mãe. O Rei percebendo as conseqüências de sua decisão anterior, procurou a mãe, contou todo o plano equivocado mas estaria disposto a permitir a volta da irmã a Tordesilhas desde que a rainha permitisse à princesa sair e participar das cerimônias e festividades.

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Guerra Civil

Entretanto a situação no norte da Espanha se complicava. O rei de França ambicionava tomar Pamplona. As províncias bascas estavam insatisfeitas com o favorecimento dos germânicos por Carlos V. Alguns senhores apoiavam abertamente os franceses. Ter ao seu lado o Duque, senhor de terras tão extensas era uma posição estratégica favorável aos interesses do rei. Por isso D. Pedro Manrique receberia todas as graças do monarca. Com ele, crescia a importância de Iñigo para dar paz à região.

Havia duas facções mais exaltadas: a dos oñacinos e beaumonteses navarros e a dos gamboínos e agromonteses. Iñigo tinha uma boa entrada junto aos primeiros o que facilitava a política pacificadora do Duque. Mas, para complicar a situação, foi oferecida ao monarca a coroa do império alemão. Este, bem mais disposto aos assuntos germânicos aceitou de imediato sem consultar ninguém.

O povo revoltou-se contra Carlos V pelo que consideraram grande desfeita à Espanha. Assim, a manhã daquele domingo 20 de maio de 1520 viu a esquadra real afastar-se do porto de La Coruña deixando para traz uma Espanha sombria, temerosa do futuro e descrente no representante deixado pelo rei, o cardeal Adriano de Utrecht. Em menos dez dias explodiria a revolta. O tempo de progresso dos reis Católicos dera lugar à guerra civil.

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A Repressão

Somente quatro meses mais tarde é que o rei, residindo em Flandres, toma uma atitude em relação ao conflito. Ele ordena que se reprimam as desordens empregando a máxima força. Nomeia um triunvirato para lhe representar. Faziam parte: Adriano de Utrecht, que viria a ser papa, D. Iñigo Fernandez de Velasco, o Condestável, e D. Fadrique Henríquez, o Almirante de Castela. Inimigos políticos, porém leais ao rei acima de tudo os três sufocaram a revolta e restituíram às cidades e vilas as antigas liberdades usurpadas.

O lance mais espetacular da repressão e que nos leva próximo a Iñigo, foi a retomada do castelo onde se encontrava a rainha Joana, que caíra em poder dos revoltosos. Documentos fazem menção à participação do Duque de Nájera e seus soldados entre os que lutaram pela libertação da cidade e do castelo. Provavelmente, apesar de não se ter nenhum registro, o valente Iñigo de Loyola esteve presente nos combates. Só temos notícia de sua participação corajosa na retomada da cidade de Nájera e depois quando lhe foi oferecido o produto do saque à cidade, "não quis tocar-lhe, julgando isto ação desonrosa e pouco digna da sua pessoa".

Entretanto, os ânimos não ficaram de todo serenados. No norte, a nomeação de um Corregedor, D. Cristóbal Vazquez de Acuña, gerou uma divisão tão radical que as partes iniciaram uma guerra violenta entre si com queima de casarios, devastações de vinhas, macieiras enfim de tudo que fosse importante para a economia daqueles povoados.

O Duque de Nájera, exercendo o cargo de Vice-Rei, preocupado com a grave situação manda suas tropas e um emissário, D. Iñigo de Loyola para buscar a paz. Este, após uma primeira tentativa frustrada, sugere afastar o Corregedor nomeado, promove ampla anistia e ao invés de condenações à morte decreta algumas extradições, entre as quais a de João de Anchieta, seu parente distante e que deportado para a ilha de Tenerife casa-se e um de seus filhos viria a ser o Grande Pe. José de Anchieta.

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Desastre em Pamplona

Mal terminara de cumprir com todo o êxito esta missão, Iñigo é chamado com urgência para apresentar-se em Pamplona onde estava D. Pedro Manrique. Ao saber que os soldados do Duque haviam sido deslocados para outra frente, deixando a capital desguarnecida, Francisco I, rei de França cruza os Pirineus toma San Jean Pied du Port, avança pelo desfiladeiro de Roncesvalles e começa a sitiar Pamplona.

Os habitantes desta cidade que eram favoráveis ao retorno de Enrique d´Albret ao trono de Navarra, promovem tal desordem que o Vice-Rei é forçado a retirar-se deixando seu castelo entregue ao saque dos inimigos. Ao sair da cidade, deixa em seu lugar um representante para comandar as tropas de resistência, D. Pedro de Beamonte. Entretanto, este não consegue o apoio da população e decide não arriscar vidas para defender os que preferem os invasores. É aí que chegam as tropas de D.Martin e também as de Iñigo. Os dois Loyolas se encontram nos arredores da cidade no exato momento que em que saem os comandados de D. Pedro, que resolvera desamparar a cidade. Esta decisão leva D. Martin a retirar também seus soldados por considerar a situação perdida.

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Luta desesperada

O jovem Iñigo julgando desonroso o abandono das terras do rei e desejoso de glória e reconhecimentos, deixa o irmão para trás, e com o seu cavalo entra na cidade. Poucos soldados o acompanham naquela atitude considerada louca e desnecessária por todos. Iñigo agora, encastelado na fortaleza, prepara-se para o combate que deveria durar dias a fim de dar tempo ao Duque reorganizar suas tropas, enquanto desgastava o inimigo.

Enfim, os franceses entram na cidade, seus habitantes prestam juramento de lealdade ao invasor. Apenas a fortaleza resiste. O comandante das tropas convida os defensores para negociar. Apela para que os espanhóis se entreguem pois estava claro que todos pereceriam. Iñigo, por sua vez, faz uma defesa tão apaixonada de seus motivos que anima seus pares e assombra seus contrários. Estava decidido, resistiriam até a morte.

O dia 20 de maio foi despertado por um intenso fogo de artilharia. Os soldados do rei estavam mal protegidos, já que a fortaleza onde se encontravam não havia sido acabada. Os canhões inimigos, de grosso calibre, postados tão perto dos muros inflingiam pesados danos. Iñigo, por sua vez, com muita pena fazia disparar sua artilharia contra os casarios que a princípio deveria defender e que pertenciam a seu senhor, o Duque.

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Gravemente Ferido

Por seis horas durou o canhoneio até que uma bala vinda por sobre o muro passa entre suas pernas dilacerando uma delas e mesmo ferindo profundamente não chegou a quebrar osso algum da outra. Este tiro teve duplo impacto. Ao mesmo tempo que acertava o comandante, derrubava de vez o moral da tropa que logo em seguida passou a agitar suas bandeiras brancas. Nova rodada de conversas se iniciou para ditar os termos da rendição. Por três dias as negociações se arrastaram deixando os muitos feridos de dentro da fortaleza com um atendi-mento médico precário.

Ao entrar no fortim semi-destruído o comandante francês, André de Foix, vendo aquele bravo, que tanto o impressionara nas conversas antes da batalha, deitado no chão com sua perna em frangalhos sofrendo as dores de seus ferimentos, determinou que a ele fossem prestados os melhores atendimentos e cuidados médicos. E assim que fosse possível, Iñigo deveria ser conduzido de volta para os seus afim de receber o tratamento adequado. A viagem de volta entre caminhadas e paradas, durou 20 dias.

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O Retorno

Ao chegar à casa de seus pais, agora vazia, pois vários irmãos já haviam perecido em suas aventuras, recebeu todos os cuidados de seu irmão mais velho, de sua cunhada e sobrinhas. Mas sua saúde estava tão precária que todos pensaram que não fosse resistir. Desesperançosos, os médicos alertaram à família que se até o fim do mês de junho ele não reagisse, sua morte poderia ser tida como certo. Entretanto, pelas festas de São Pedro, Iñigo começou a melhorar e ninguém mais duvidava de sua recuperação. Dali em diante passaria longos dias solitário em seu quarto entregue a pensamentos e projetos.

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Vaidades

Retiradas as ataduras de sua perna, ele se deu conta de que uma delas estava mais curta do que a outra. E que um osso ficara "cavalgado" no outro deixando na perna uma calombo muito feio para a vaidade do valente soldado. Iñigo não poderia suportar aquela situação. Como se apresentaria nas cortes? Como cortejaria a dama de seus sonhos? Tomou, então, uma decisão drástica, para espanto de todos e principalmente do irmão D. Martin. Mandaria cortar novamente a perna, serrar o osso de tal forma que voltasse a ter o aspecto de antes. A tudo Iñigo suportou com coragem e resignação próprias de um cavaleiro.

Seus médicos disseram que sua recuperação agora seria bastante demorada. Que faria além de passar largas tardes apreciando os arvoredos do rio Urola e as encostas pedregosas do Monte Izarraitz? A princípio pensava nas façanhas que realizaria a serviço de sua dama. Sonhava com a maneira com que se aproximaria, o que diria para ela, o que faria para impressioná-la. Entediado, pede alguns livros para sua cunhada mas não havia nenhuma literatura de cavalaria para deleitar-se. Apenas os livros da Vida de Cristo e Vida dos Santos.

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Meditando

Iñigo começou a leitura de má vontade, só para matar o tempo mas descobriu que estava gostando. Notou também que sentia paz e alegria ao fechar tais livros, ao contrário do que acontecia quando cultivava seus sonhos de cavaleiro, que ao final o deixavam triste e frustrado. Essa diferença de humor o deixa perplexo. Todas essas impressões eram registradas em um caderno e depois comparadas para ver quais as que se repetiam e quais não. Eram os primeiros passos para o discernimento do espírito. Iñigo percebe que as coisas boas permaneciam mais tempo e saciavam a alma. Estas deviam ter origem no Bom Espírito. As que deixavam desolação, vinham do mau espírito.

Assim ele constrói uma metáfora que seria depois melhor desenvolvida nos seus Exercícios Espirituais. Nela compara sua alma a um território em disputa por dois exércitos inimigos, um do Bem e o outro do mal. Aquelas leituras o faziam pensar: "Que aconteceria se eu fizesse o que fez São Francisco?... e São Domingos?..." Não lhe faltavam audácia e coragem. Então fez uma promessa do que lhe parecia mais difícil: ir a Jerusalém descalço, comer só verduras e sub-meter-se às mesmas penitências feitas pelos santos, e até maiores.

Seu raciocínio estava cheio de um espírito ingenuamente competitivo: São Domingos fez isto? Pois também eu farei!" Se um homem foi capaz daquilo, por que ele também não seria? O foco de sua vida começa a mudar radicalmente. Seus assuntos entre os familiares eram sempre religiosos. Nem quando seu irmão Martin volta da batalha de Fuenterrabia com numerosos feitos a contar, isto não lhe desperta o menor interesse. Parecia ausente, alheio àqueles assuntos mundanos. Mais importante era colocar-se a serviço de Deus.

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Decidido

Com o passar do tempo Iñigo percebe que o serviço de Deus o levaria para longe de sua família. Ir à terra de Jesus, visitar, rezar e fazer penitência nos locais onde Cristo passara seus dias e seus tormentos, tornou-se o objetivo imediato do agora cavaleiro de Deus. Só que então, desprezava sua vaidade, sentia repulsa de seus antigos desejos e estava decidido a abandonar todas as riquezas para poder dar a resposta que o jovem rico não conseguira dar a Jesus.

Como daria a notícia ao irmão com quem, juntos, tantos projetos fizera e tantas batalhas lutara? Não poderia mentir ... E não o fez. Disse a Martin e sua cunhada que iria acertar umas contas com o Duque. Seus parentes entretanto pressentiram algo mais pois presenciaram a profunda mudança de comportamento do caçula ao longo daquele ano. E Iñigo era um legítimo representante dos Loyola. Nada o deteria.

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O Mouro

No caminho, ocorreu um fato curioso que marcou o peregrino naquilo que viria ser uma característica sua: o processo de discernimento. Eis os acontecimentos. Iñigo vinha em sua mula e encontrou um mouro no caminho. Era comum que viajantes se acompanhassem conversando para passar o tempo de forma mais agradável. Para o basco, não havia outro assunto possível que não as coisas de Deus. E aí deu-se a controvérsia.

O mouro afirmou coisas sobre Maria que Iñigo considerou ofensivas à sua Senhora, à dama a quem estaria prestes a depositar armas em seu serviço. Irado o cavaleiro encerrou a discussão e os dois se separaram, indo o mouro à frente. Em sua mula ia ruminando ações para restaurar a honra atacada e seu desejo era enviar aquele descrente para o outro mundo, mas ao mesmo tempo sabia que Deus não aprovaria morte alguma.

Então, ao perceber que à frente haveria uma bifurcação decidiu deixar que a vontade de Deus se expressasse na decisão da mula. Ele soltaria a rédea e deixaria o animal livre. Caso ela seguisse o caminho do mouro, interpretaria que Deus exigia uma reparação, do contrário não pensaria mais no assunto. Como a mula não seguiu o mouro, Iñigo passou a refletir sobre como se manifesta a Vontade de Deus. E esta busca o acompanharia por toda a vida e seria a sua própria razão de existir.

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Cavaleiro de Maria

O texto a seguir, retirado de sua autobiografia, conta um pouco de sua viagem. "Ao passar por Zaragoza quis comprar a roupa que determinara ir à Jerusalém. Comprou tela, de que se costumam fabricar sacos, uma cuja trama não é fina e tem muitas asperezas. Mandou logo costurar dela uma veste comprida até os pés. Comprou mais um bordão e uma cabacinha, e colocou tudo no arção da mula. Comprou também um par de alpargatas, mas só levou uma, não por cerimônia, mas porque levava uma perna um tanto maltratada e por isso toda enfaixada. Mesmo andando a cavalo, cada noite a encontrava inchada e pareceu-lhe que era preciso levar um pé calçado"

Seu destino era Jerusalém, para isso era necessário pegar uma embarcação em Barcelona para alcançar Veneza e aí tentar uma passagem à Terra Santa. Por isso a visão do Monte Serrado deve lhe ter trazido o conforto de estar caminhando para o seu objetivo.

Chegando em Montserrat procurou um confessor e esteve com ele por 3 dias. Ao final, entregou sua espada e seu punhal no altar dos ex-votos doou sua mula para a comunidade e fez sua vigília de oração onde entregou-se à Virgem Maria como seu soldado, ao estilo da cavalaria. Comprometia-se assim até a morte com a mãe do Salvador.

O próximo passo foi romper definitivamente com o passado e doou suas roupas ao primeiro pobre que encontrou. Este fato lhe marcou tremendamente pois quando seguia mais adiante foi alcançado por um guarda que lhe perguntou se era Iñigo de Loyola, e que a pessoa que lhe roubara as roupas, depois de uma surra confessara o delito. Iñi go ficou desesperado. Tentara fazer o bem mas só causara o mal àquela pess oa. Chorando muito, ele desfez o mal entendido e percebeu que praticar o bem implica em compromisso.

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Manresa

No dia seguinte toma rumo a Barcelona para então embarcar de navio para a Itália. Porém, com medo de que as elites lá estivessem para as despedidas do Papa recém eleito e encontrasse alguns conhecidos, nosso viajante toma o rumo de Manresa, onde fica alguns dias. Ao chegar, devido às imensas privações a que se impôs, ele está quase desfalecido e necessita da ajuda de duas senhoras para interná-lo no hospital da cidade. Recuperado, começa a levar a vida que escolhera sendo logo reconhecido na cidade como alguém diferente. Para as crianças era o homem do saco para os demais era o homem santo.

Iñigo esmolava e repartia os ganhos com os miseráveis que encontrava. Sua vaidade anterior fora substituída por uma profunda aversão às mundanidades. Não cortava mais os cabelos nem os penteava. Igual tratamento dispensava às suas unhas. Entretanto, todos percebiam que aquele mendigo tinha maneiras diferentes dos demais. E era despojado de tudo por opção pessoal e entrega a Deus. Seus planos, entretanto, foram alterados pois grassou uma peste em Barcelona e os forasteiros não eram permitidos na cidade. Assim, demorou-se quase um ano em Manresa.

Nos primeiros quatro meses levou uma vida de dedicação recheada de consolações que o motivavam a perseverar e continuar em sua opção. Ajudava no serviço aos doentes; pedia esmolas e as distribuía entre os necessitados; alegrava-se com as renúncias que fazia e sentia-se um seguidor de Cristo. Dedicava-se principalmente à oração.

Passado este tempo, sofreu grandes provações que o levaram até a questionar suas decisões e depois ficou movido de um escrúpulo tão intenso quanto aos seus pecados passados que isto o impedia de ir adiante. Confessava-se várias vezes de atos praticados na juventude e isto não lhe trazia consolação, ao contrário, chegou mesmo a pensar em tirar a própria vida. Só não o fez por não querer praticar nenhum ato que ofendesse a Deus.

Atormentado por arrependimentos incuráveis, ele não tinha mais paz, alimentava alguns desgostos pela vida que abraçara, experimentava consolações passageiras e inúmeras variações em seu estado de espírito. Até que um dia percebeu que aquele excesso de zelo só o estava afastando de Deus e de sua opção e isto só interessava, em sua análise, ao mau espírito.

Com este pensamento, sentiu-se imediatamente liberto daqueles tormentos e encontrou novamente a paz, não pensando nunca mais em seu passado e, sentindo o poder do perdão de Deus, voltou para sua vida de consolação. Esta fase em muito o ajudou para determinar a diversidade de espíritos que invadem nossas almas.

A partir de então sobreveio-lhe uma fase de contemplação. Neste período teve tranqüilidade para rezar e meditar e o fazia tão intensamente que por várias vezes desfalecia. Não se sabe se estava sofrendo de algum mal ou se era puro êxtase. Foi um dia nas margens do rio Cardoner que viveu o seu apogeu místico. Ele percebeu, vendo uma luz intensa, mais verdades do que se vários professores por vários dias o tivessem ensinado. Ele nos relata que desta experiência foi como se sua mente fosse desembrulhada e que lhe ficou facilitada a compreensão das Verdades Divinas. Nesta ocasião, teve também intuições sobre sua missão entre os homens: o Instituto da Companhia.

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Os Exercícios Espirituais

Os Exercícios Espirituais começaram a tomar forma a partir das reflexões em Manresa. Como sempre, Iñigo registrava todos os pensamentos e sentimentos de sua alma. Com muito cuidado escolhia cada palavra que colocava em seu texto. A partir destes momentos de solidão e oração, Iñigo teve a clareza de perceber o plano de Deus para a humanidade e o convite pessoal que fora feito a ele para a construção do reino de Deus na Terra.

Isto resultou na meditação do "Chamamento do rei temporal". Também percebeu com clareza o embate do bem contra o mal e suas conseqüências. Desta última resultou a meditação das "Duas bandeiras" Desde então ele dava metodicamente seus Exercícios aos que buscavam seus con-selhos, ajudando-os a purificar suas almas e ensinando a melhor maneira de escolher suas opções de vida e os diversos modos de orar.

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A Caminho de Jerusalém

Passado este tempo, Iñigo retoma seu propósito de servir a Cristo em Jerusalém e finalmente, a partir de Barcelona consegue embarcar em uma nau rumo à Itália. O forte vento favoreceu a velocidade da embarcação, levando também temor aos seus tripulantes pela intensidade da tempestade. O percurso completou-se em cinco dias.

Ao saltar do barco, o peregrino, como costumava chamar-se, tomou prontamente o caminho de Roma. Juntaram-se a ele um moço, uma senhora e sua filha, vestida de rapaz a fim de evitar determinados perigos de viagem. Quase de noite, os quatro viajantes chegam a umas casas onde uns soldados percebem o disfarce da jovem e muito gentilmente começam a oferecer vinho em demasia a fim de embebedar a todos. Na hora de recolherem-se, colocam mãe e filha dentro de casa e Iñigo e o moço no estábulo. Perto da meia-noite, Iñigo desperta com uma gritaria desesperada vinda de dentro da casa. Percebendo o que estava para suceder, prontamente se encaminha para a casa e com palavras e autoridade de comandante deteve os soldados, livrando mãe e filha de uma situação terrível.

A Itália toda estava amedrontada com a peste que dizimava grande número de pessoas. O controle sanitário à porta das cidades era bastante rigoroso. Peregrinos e mendigos eram simplesmente impedidos de entrar nos povoados. Mas, em momento algum Iñigo foi barrado mesmo não portando documentos. Até em Veneza sua entrada se deu sem constrangimentos. Enquanto esperava por um navio que o levasse a Terra Santa, Iñigo suportou a fome e o frio de Veneza. E não havia barcos para Jerusalém pois o caminho estava sob domínio turco.

O peregrino se pergunta se era vontade de Deus a sua ida e dá um prazo para que ela se realize. Antes de findar este tempo, um rico espanhol se compadece dele, o alimenta e sabendo da sua intenção de peregrinar o leva até a presença do Doge que ordenou que lhe dessem a passagem desejada. Perto do dia de embarque, foi acometido de forte doença e desaconselhado de viajar. Persistente, insiste na aventura e após alguns dias de muito sofrimento começou a melhorar até ficar bom por completo.

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Em Jerusalém

A situação de peregrino cristão na Terra Santa era muito difícil naqueles tempos. O domínio turco impunha aos católicos romanos grandes constrangimentos. E o grupo em que se encontrava Iñigo não foi poupado de humilhações, extorsões e formalidades inúteis. Ainda assim os quase 20 dias passados em Jerusalém foram muito proveitosos. Visitaram o Cenáculo, a coluna da flagelação, a casa onde se deu Pentecostes, o Santo Sepulcro, as 14 estações entre a casa de Pilatos e o Calvário, o monte das Oliveiras entre outros lugares.

Todas estas visitas levavam Iñigo a um estado tal de adoração que ele ficou mais decidido ainda a viver naquele lugar sagrado para sempre. E esta vontade ele comunicou ao representante do Provincial. Qual não foi sua decepção ao ser informado que não poderia ficar em Jerusalém, pois a situação com os turcos era cada vez mais delicada e a Ordem Franciscana já tivera que mandar alguns dos seus de volta por não poder mantê-los lá. Levado ao Provincial ele argumentou que viveria de esmolas, o que só complicou o problema pois as pessoas que ficavam em tal situação eram as que mais causavam transtornos. Ele argumentou com tanta veemência, que o Superior foi forçado a ameaçá-lo de excomunhão.

Isto fez com que Iñigo percebesse que a Vontade de Deus não era que ele per-manecesse no Oriente. E resignado acatou a imediatamente a decisão. Desconfiado de uma provável fuga, o superior ordenou que permanecesse no convento até o dia do embarque. Iñigo, entretanto, ficou dividido e apesar de ter imenso respeito pela autoridade eclesiástica, fugiu daquele local para aproveitar os últimos momentos na Terra Santa, venerando os locais por onde Jesus havia andado.

O guarda do Provincial só foi achá-lo junto à Pedra da Ascensão, de onde acredita-se que Jesus tenha subido aos céus. Há uma crença que uma marca nesta pedra seja do pé do Cristo e Iñigo queria saber para que lado Ele olhava quando se despedia dos discípulos. Ao encontrá-lo e vendo tamanha fé, o guarda não o repreendeu. Apenas segurou-o fortemente com receio de nova escapada.

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De volta

O embarque de volta foi muito atribulado. Em Chipre, o capitão do navio que deveria levá-lo se recusou a tê-lo a bordo pois Iñigo não possuía dinheiro para pagar sua passagem. Os outros peregrinos intercederam por ele junto ao comandante de uma embarcação menor que o aceitou sem necessidade de pagamento. No início de novembro a grande nau, a pequena e outra repleta de turcos lançaram-se ao mar.

Pouco tempo depois, violenta tempestade atinge as embarcações e a grande foi lançada contra as pedras e se perdeu, salvando-se todos. Menos sorte teve a dos turcos que naufragou levando os passageiros para o fundo. Somente a pequena, onde estava Iñigo, nada sofreu. Mas agora outro desafio se colocava para Iñigo. Qual seria a Vontade de Deus para sua vida? Ao chegar a Veneza já tinha a certeza de que deveria voltar para a Espanha e aí estudar para melhor poder ajudar as almas.

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A Inquisição

Entre as atividades realizadas uma delas era a de receber pessoas, aconselhá-las e orientá-las nos Exercícios Espirituais. Dedicava-se com empenho especial aos miseráveis e prostitutas. Depois de dois anos de estudos deixa Barcelona e se fixa em Alcalá. Sua fama corria pelo reino e não tardou a chegar aos ouvidos das autoridades eclesiásticas que eram excessivamente cautelosas quanto a novidades, principalmente em tempos de reforma luterana. Intimado a comparecer perante a Inquisição, Iñigo é preso e aguarda mais de um mês para ser ouvido. Enquanto isto prega para outros prisioneiros.

Seu processo não encontra nada contra ele, mas recebe orientações quanto ao seu modo de vestir e não deveria mais falar de coisas de fé até que estudasse por mais quatro anos para fundamentar-se melhor. Inconformado, vai buscar conselho com o Arcebispo de Toledo que o encaminha à Salamanca. Lá é submetido a novo interrogatório e todo seu grupo de amigos fica detido até que os novos inquisidores não encontram em seu proceder nada que ferisse a Igreja. Liberado para pregar as coisas de Deus, foi-lhe proibido falar sobre o que era e o que não era pecado até que tivesse um estudo mais profundo.

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Em Paris

Esta situação tolhia sua naturalidade para falar de Deus. Determinado, parte de Barcelona em direção de Paris sozinho e à pé, por entre campos de batalhas, em busca de um lugar onde pudesse pregar livremente e estudar. Lá, percebe que passar longo tempo mendigando para poder pagar os estudos o afastaria dos livros. Então, procura por quem o financie, a princípio na França e depois em Flandres e Londres.

Com seus estudos garantidos, dedica-se aos companheiros e é nesta ocasião que muda o seu nome para Inácio. Era comum a latinização dos nomes próprios. O nome Inácio foi escolhido, ao que se supõe, em homenagem a Santo Inácio de Antioquia que ao morrer pelos leões tinha seu coração marcado pelo sinal da cruz. Iñigo fica impressionado com aquela fé imensa que chegara ao ponto de marcar fisicamente aquele homem.

A fama da Sorbonne trazia pessoas de diversos lugares e criava um ambiente eclético. Como companheiros de quarto Inácio passa a conviver com Pedro Fabro e Francisco Xavier. Este último não o vê com bons olhos por considerá-lo beato e por antiga rixa familiar pois os Xavier apoiavam os franceses na invasão da Pamplona que Inácio defendera. O aluno Francisco se destacava em todas as atividades que participava. Era o centro das atenções na Universidade. E ele gostava desta vida.

Entretanto, quando morreu a irmã que lhe pagava os estudos, a família o avisou dizendo que ele deveria interrompê-los pois ninguém mais se dispunha a financiá-lo. Aquela notícia foi para ele uma tragédia. Seus sonhos caíram por terra. Inácio ao saber disso vê a chance de conquistar o amigo. Organiza um mutirão para bancar inicialmente os estudos do outro, enquanto arranjava alunos particulares o suficiente para que Francisco se sustentasse sozinho. Isto o fez aproximar-se do grupo e acabar abraçando a causa.

Findo o curso de Filosofia, o grupo presta o juramento solene de dedicar suas vidas para a causa de Deus, para praticar o bem em seu Santo Nome. Decidiram ir a Veneza e depois a Jerusalém. Tentariam embarcar durante um ano. Terminado o prazo, se não conseguissem passagem ou mesmo, se indo até a Terra Santa, fossem obrigados a voltar, procurariam o Papa e se colocariam a seu serviço.

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Doente

Ocorre que Inácio fica muito doente e os médicos lhe dizem que só se recuperaria se passasse uma temporada em sua terra natal. Os amigos se separam e Inácio volta a Loyola. Queria, entretanto, chegar incógnito, mas antes mesmo de alcançar sua aldeia alguém o reconheceu e correu para espalhar a notícia pela cidade. Seu irmão Martin era o mais alegre. Porém o tempo passa e Inácio não chega. O que teria acontecido? Inácio sabia que o irmão lhe daria todo conforto, o festejaria e faria a maior propaganda do Santo da família. Isto era tudo o que ele não queria. Sua intenção era apenas recuperar-se. Não queria badalação.

Martin sai a procura de Inácio, o encontra e faz o convite. Inácio recusa explicando seus motivos. Martin não entende e considera a ausência do irmão uma afronta contra a família. Era como se o "Santo" não achasse aquela família merecedora. Virou um caso político. Ao que se sabe, depois de recuperar-se Inácio passou uns dias com a família para satisfazê-los e depois partiu. Martin fez questão de dar-lhe o melhor cavalo para a viagem, mas o peregrino, para não gerar discórdia o aceita só para sair da cidade, à vista de todos, pois o irmão não queria parecer pão-duro, e devolve a montaria ao chegar à estrada. Os dois nunca mais se veriam. Inácio seguiu seu caminho novamente sozinho e a pé. Tinha-se passado quase dois anos.

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A Companhia de Jesus

Em Veneza, Inácio reencontra seus companheiros e todos trabalham em diversos hospitais tendo sempre como meta a ida a Jerusalém. Em meio aos preparativos para a viagem, os venezianos rompem relações com os turcos e naquele ano não sairia nenhuma embarcação para o Oriente. Inácio e outros do grupo que ainda não eram padres ordenam-se em Veneza e seguem pregando até se passarem os doze meses que tinham estipulado para viajar ou não. Após este tempo e como a situação política não se altera, o grupo vai a Roma ver o Papa.

A caminho de Roma, indo solicitar ao Papa a aprovação para que constituíssem uma Ordem Religiosa, Inácio teve uma visão de que a despeito de dificuldades tudo lhes seria favorável nesta questão. O encontro com o Papa Paulo III não poderia ser melhor. Todos os receios se dissiparam e foi concedida a autorização para a formação da Companhia de Jesus. O Papa via com bons olhos a renovação de sua Igreja fazendo frente à Reforma Luterana.

O grupo após longo discernimento decide tornar Inácio o 1º Geral da Companhia e partir em peregrinação missionária pelo mundo todo. De longe Inácio orientaria, daria a unidade e garantiria os objetivos originais. A vocação para a educação não foi de pronto percebida. O primeiro Colégio seria como um seminário. Porém, a excelência da formação gerou uma demanda por parte dos leigos que fez com que seus filhos fossem aceitos. E assim se espalhou pelos quatro cantos a formação inaciana.

Ao contrário do que podia parecer, o trabalho em Roma tomava todo o tempo de Inácio. Somente no fim da vida, consente em deixar seu secretário anotar suas memórias que vieram a constituir sua autobiografia. O Homem que viveu para os outros, morreu em 31 de julho de 1556, sozinho em seu quarto.

Santo Inácio deixou atrás de si uma obra que persiste por quase 450 anos e que tem, ao longo deste período todo, contribuído para a formação de pessoas comprometidas com o tempo em que vivem.

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