Entrevista com Mônica Waldhelm
Professora de Biologia do CEFET-RJ
Doutoranda em Educação- PUC-RJ

É importante que os professores discutam na escola a questão da inclusão?

Sem dúvida! Se o educador não discute esta e outras questões, admitindo suas dificuldades no trabalho com o portador de necessidades especiais, como garantir inclusão de fato? O preconceito, o desconhecimento ,a inexperiência e a falta de suporte da instituição escolar acabam amedrontando o professor ,dificultando a aprendizagem do aluno e frustrando todo um trabalho que poderia ser desenvolvido. É preciso quebrar esta cultura da solidão pedagógica e aprender a trocar, a socializar receios e experiências com os colegas a fim de superar dificuldades.

Quando falamos de inclusão estamos falando apenas de necessidades especiais ou de algo mais?


Acredito que dentro da proposta de Educação para Todos, há mais que necessidades especiais por trás da questão da inclusão. Nossos currículos escolares são tradicionalmente brancos, eurocêntricos e masculinos. Assim, discutir a inclusão pode ser o canal pra discutir a perspectiva multicultural do currículo e as questões relativas a gênero , etnia e classe social, por exemplo.

Qual é a diferença entre integração e inclusão?

O conceito de integração localiza na pessoa portadora de necessidades especiais o foco da mudança. Ela é que precisaria sob este foco adaptar-se, buscar uma “normalização” para conviver com o resto da sociedade. A diferença assim, pode ser mascarada e encarada como fator de inferioridade. Já na inclusão, o movimento é nos dois sentidos: no indivíduo e na sociedade. Estimula-se a autonomia do portador de necessidades especiais ao mesmo tempo em que se criam condições materiais e sociais para que esta´pessoa possa locomover-se, comunicar-se,estudar, trabalhar,ter acesso a bens culturais etc. A adequação não tem assim o intuito de “ normalizar” , mas de reconhecer a diferença sem legitimar a desigualdade.

Como escolas particulares, que atendem à classe média, podem situar-se diante da questão da inclusão?

A resposta parece-me simples. Se estas escolas vêem os alunos como clientes, e consideram apenas a relação custo/benefício da inclusão ( percentual de alunos com necessidades especiais no universo de matriculados),talvez não “ compense “ adaptar salas de aula, reformular currículos e preparar melhor os professores. Mas se a escola de fato assume sua responsabilidade social e percebe claramente que a convivência na diversidade oportuniza para todos os alunos um aprendizado riquíssimo no campo das relações interpessoais, ela vai investir recursos materiais e humanos para garantir a inclusão . Estas relações constituem um aspecto básico da vivência cidadã e democrática, essencial para qualquer classe social. E como mãe, eu confiaria mais em ema escola assim para meu filho. Não adianta meu filho sair craque em Matemática da escola e um dia resolver colocar fogo num morador de rua que dorme na calçada ou surrar um homossexual por “ brincadeira” .
Solidariedade, respeito à diversidade, ética e convivência são pra vida toda e não apenas para ser aprovado no vestibular.

O que você sugere para o avanço do processo de inclusão na escola?

Que a questão seja efetivamente discutida com toda a comunidade escolar e contemplada no Projeto pedagógico . Que seja oportunizada formação complementar e suporte pedagógico para os educadores . E que o portador de necessidades especiais não seja tratado de modo paternalista e piegas, mas estimulado a desenvolver o máximo de autonomia.
O espaço físico adequado é fundamental, mas o que garante mesmo a inclusão é uma atmosfera de acolhimento, onde todos sintam-se parte de uma rede de aprendizados e afetos.