Crianças com controle remoto?
Eduardo Monteiro
Núcleo de Mídia-educação

Não é fácil ser pai e mãe de Power Rangers, Dexters, Superpoderosas e outras criaturas em que nossos filhos vivem se transformando. Tampouco administrar seus super-poderes e as hordas de seus inimigos que nos invadem a casa. O pior são as assombrações que nos visitam na hora de pôr a cabeça no travesseiro: será que eu deixo esse menino ver esses desenhos esquisitos? Essa menina agora quer resolver tudo no estilo Docinho “antes de dormir”! E aquela cena de sexo quase explícito na novela, será que já dava pra mais nova assistir?

Somos, na maioria, pais e mães responsáveis. O mesmo, porém, não se aplica a produtores e emissoras de TV. Sem falar na atuação dos poderes públicos sobre o que é exibido para crianças ou sobre as concessões de canais. O que nos interessa aqui, porém, é como nós, pais e educadores, famílias e escola, nos posicionamos diante dos valores e ideologias difundidos via TV, games, sites, revistas, FMs “jovens” etc.. Afinal, a formação de nossos filhos é responsabilidade nossa.

Sem parâmetros éticos ninguém educa de verdade. Evitando moralismos, mas alguma moral, com alguma regra, tem de resultar da ética, isto é, do sistema de valores que orienta nossas escolhas e atos. Tal como nós, quando nossos filhos gostam de alguns programas (acham “sinistro”, “irado!”), e rejeitam outros, estão fazendo escolhas, que são primeiramente estéticas, mas já indicam que eles identificam ou não algum valor ali. Um simples“feio” ou “bonito” ajuda a entender as expressões desses valores; a gente ensina isso cedo às crianças, dizendo “bonito(feio) isso que você fez”, para informá-las se julgamos certos ou errados seus atos.

Ora, violência, desonestidade ou consumismo fútil são partes da vida, e a mídia não poderia fingir que essas coisas (feias, suponho) não existem. Outra história é valorizar isso por meio de uma estética sedutora, que vai do vídeo à mochila escolar, cuja moral pode ser tornar natural que alguns problemas da vida sejam melhor resolvidos comprando algo ou na pancadaria. Tão natural bater no coleguinha que pegou minha bola quanto bombardear o Iraque porque pegou a bola dos americanos... Será que ninguém pensou: “que feios aqueles iraquianos bigodudos”, ou “que maneiro o equipamento dos americanos”? Por dentro da sensação estética (achar bonito ou feio) em geral vai uma escolha: a ética, que estabelece as noções de valores e daquilo que é certo ou errado.

Tudo isso é muito relativo: a Docinho pode despertar o senso de justiça, o Dexter o interesse pela ciência. Mas é fato que as mentes jovens são vorazes consumidoras de informações, pois precisam de modelos e de nutrição cultural para a construção do sujeito. Também é fato que, culpas à parte, nossas agendas nos impõem a correria doida da vida pós-moderna, quase pós-humana, forçando relações cada vez mais vividas a distância. E não há como impedir que nossos filhos fiquem muitas horas por dia na companhia de máquinas de entreter, que são sempre máquinas de ensinar.

É aí que entra a mídia-educação, como intervenção cada dia mais importante no âmbito tanto da escola quanto da família. Entre outras coisas, ela visa permitir que o indivíduo construa sua autonomia como consumidor cultural. Já que as crianças irão desacompanhadas para a rua virtual da mídia, é importante nos assegurarmos que elas formem seus próprios filtros estéticos, orientando suas escolhas (de canal, de site etc.) por valores virtuosos, sabendo escolher aquilo que “nutre bem” suas cabeças. Crianças com padrões tão elevados de consumo cultural, contudo, são um sonho, distante muitos anos de trabalho da realidade. Trabalho que começa já, sabendo que educar assim é tarefa complexa em que escola e família combinam estratégias.

Como tarefa de casa , nós pais temos: (1) o investimento cotidiano na formação de hábitos que guardam os valores que desejamos para nossos filhos; (2) a assistência em nossa companhia (e/ou conhecer bem o que eles assistem, mesmo que nos dê enjôo); (3) o estabelecimento de regras, de horários, de pode/não pode etc.; além de, (4) estarmos nós mesmos sempre elaborando nossa opinião sobre as coisas da mídia.

Como tarefa escolar , nós educadores precisamos “refinar o paladar” de quem educamos: (1) atuando com estratégias para a melhor educação dos sentidos (olhar, ouvir etc.); (2) facilitando que conheçam produtos de qualidade; (3) usando metodologias que incluam a comunicação multimídia; (4) analisando criticamente a mídia com eles; (5) colaborando com as famílias com informação e discussão.

O fiel da balança, porém, é a qualidade da nossa vivência pessoal como cidadãos. Porque o ambiente sócio-afetivo da criança ainda pesa muito. E a maior contribuição à sua formação é o nosso próprio exemplo inspirador: sermos gente que consome, constrói e difunde cultura com rigor de critérios e com valores referenciais fortes. Sem esquecer que comunicação é diálogo, mas diálogo é quase sempre contraposição de perspectivas - convencer e deixar-se convencer.